Federação Nacional de Educação e
Integraçao dos Surdos

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Libras
Histórico Nacional


Uma Breve Retrospectiva da Educação de Surdos no Brasil e a Líbras

Em 1857, foi fundada a primeira escola para surdos no Brasil, o Instituto dos Surdos-Mudos, hoje, Instituto Nacional da Educação de Surdos (INES). Foi a partir deste instituto que surgiu, da mistura da Língua de Sinais Francesa, trazida por Huet, com a língua de sinais brasileira antiga, já usada pelos surdos das várias regiões do Brasil, a Língua Brasileira de Sinais.

O instituto de l'Eppe contribuiu, também, para o desenvolvimento da Libras porque, em 1896, houve nesta escola um encontro internacional que avaliou a decisão do Congresso Mundial de Professores de surdos que tinha ocorrido em 1880, em Milão.

A pedido do governo, viajou para a França, o professor do antigo Instituto, A. J. de Moura e Silva, para avaliar aquela decisão de que todos os surdos deveriam ser ensinados pelo "método oralista puro". Moura e Silva concluiu em seu relatório que este método não podia servir a todos os surdos.

Assim, o antigo Instituto continuou como um centro de integração para o fortalecimento do desenvolvimento da LIBRAS, pois segundo Relatório do Diretor Dr. Tobias Rabello Leite, de 1871, esta escola já possuía alunos vindos de várias partes do país e após dezoito anos retornavam `as cidades de origem levando com eles a Libras.

As escolas podem ser um dos fatores de integração ou desintegração das comunidades surdas, dependendo da metodologia adotada. Se uma escola rejeita a língua de sinais, as crianças surdas que estudam nesta escola ou não vão conhecer a comunidade surda de sua cidade e, conseqüentemente, não aprenderão uma língua de sinais ou poderão se interagir com os surdos de sua cidade somente após a adolescência.

A partir do Congresso em Milão, em 1880, a filosofia educacional começou a mudar na Europa e, conseqüentemente, em todo mundo. O método combinado, que utilizava tanto sinais como o treinamento em língua oral, foi substituído em muitas escolas pelo método oral puro, o oralismo.

Os professores surdos já existentes nas escolas naquela época, foram afastados, e os alunos desestimulados e até proibidos de usarem as línguas de sinais de seus países, tanto dentro quanto fora da sala de aula. Era comum a prática de amarrar as mãos das crianças para impedí-las de fazer sinais. Isso aconteceu também no Brasil. Mas, apesar dessas repressões, as línguas de sinais continuaram sendo as línguas preferidas das comunidades Surdas por serem a forma mais natural delas se comunicarem.

Hoje, há escolas aqui no Brasil que, mesmo ainda sem uma proposta bilíngüe, têm se tornado fator de integração da cultura surda brasileira porque as crianças, jovens e adultos se comunicam em Libras, e muitos professores destas escolas já sabem ou estão aprendendo esta língua com instrutores surdos.

Por outro lado, várias escolas, em cidades ou estados que não possuem associação de surdos, trabalham ainda somente com uma metodologia oralista e as crianças surdas destas escolas desenvolvem um dialeto entre elas para uma comunicação mínima, mas estas ficam totalmente desintegradas da Cultura Surda brasileira e a maioria não tem um bom rendimento escolar.

Devido ainda a esta metodologia oralista, há alguns surdos que, rejeitando a Cultura Surda e conseqüentemente a Libras, só querem utilizar a língua portuguesa, e há muitos surdos que, embora queiram se comunicar com outros surdos em Libras, devido ao fato de terem se integrado a Cultura Surda tardiamente, usam, não a Libras, mas um bimodalismo, ou seja, sinalizam e falam simultaneamente, como os ouvintes quando começam a aprender alguma língua de sinais.

Pelo não domínio da Libras, muitos surdos, quando estão em uma situação (eventos acadêmicos, políticos, jurídicos, etc) que exigiria intérpretes de Libras para melhor compreensão, não conseguem entender nem a língua portuguesa nem a Libras, ficando marginalizados, sem poder ter uma participação efetiva.

Mas se, ao contrário desta situação, houver uma valorização desta língua e, nas escolas, tanto professores como alunos a utilizarem em todas as circunstâncias, poderá haver uma participação efetiva de surdos adultos e dos alunos.

Aqui no Brasil, há mais de cem anos, a primeira escola para surdos valorizava a Libras, que era utilizada pelos alunos naquela época. Este respeito à Libras propiciou o surgimento da primeira pesquisa sobre esta língua, que foi publicada em um livro que, através de desenhos e explicação destes, mostrava sinais mais usados pela Comunidade Surda do Rio de Janeiro.

Este livro, Iconografia dos Signaes dos Surdos-Mudos, publicado em 1875, foi feito por um ex-aluno do Instituto de Surdos-Mudos, Flausino José da Gama que, ao completar dezoito anos, foi contratado por esta escola para ser um Repetidor, ensinado aos seus colegas, em Libras, os conteúdos das disciplinas, segundo o Relatório do Diretor, Tobias Rabello Leite, de 1871(2).

Embora nos primeiros Relatórios sobre as primeiras turmas deste Instituto, feitos pelo diretor a partir de 1869, constem nomes de alunas, em número reduzido, posteriormente, durante muitos anos, este instituto se tornou uma escola só para meninos, e meninos livres. Os então educadores consideravam que as meninas surdas, por serem tranqüilas e estarem submissas às famílias, não necessitavam de escola, o que seria vantajoso para o governo porque não iria ter gastos para repasse de recursos financeiros na educação para elas.

Com o passar dos anos, outras escolas somente para crianças surdas foram surgindo. Em 1923, foi fundado o Instituto Santa Terezinha, escola particular, em São Paulo, somente para meninas. Em 1957, foi fundada a Escola de Surdos em Vitória, no Espírito Santo. Mais recentemente, 1954, outra iniciativa privada, com verba de outros países, foi fundada a Escola Concórdia, em Porto Alegre. Atualmente há muitas escolas municipais como, por exemplo, a Escola Rompendo o Silêncio, em Rezende no Rio de Janeiro, a Escola Municipal Ann Sullivan, em São Caetano do Sul e a Escola Hellen Keller, em Caxias do Sul, uma escola somente para surdos que vem implementando uma proposta bilíngüe para a educação dos surdos, ou seja: aquisição da Libras e aprendizado, com metodologia apropriada, da língua portuguesa e da língua de sinais brasileira.

Como em outros países, os surdos vêm lutando para terem escolas para surdos porque acreditam que através de um ensino que atenda eficazmente suas necessidades lingüísticas e culturais, eles poderão se integrar e estar em condições de igualdade com os ouvintes quando disputarem, em concurso, uma vaga para universidades ou empregos.

Uma política educacional que leve em conta a realidade e tradição dos surdos no Brasil poderá reverter o atual quadro de insatisfação, em relação à qualidade da educação para surdos, que prevalece nas comunidades surdas.


2 - Tanya Felipe. Libras em Contexto (Texto produzido em co-autoria com Emeli Marques)

 

 

I Seminário Nacional: Surdos Um Olhar Sobre as Práticas em Educação – Caxias do Sul 27-29/09/2001

Construindo espaço para uma escrita de língua de sinais dentro da educação bilíngüe dos surdos

 

 
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